Aposta no pior – e no melhor

Michel Houellebecq (Divulgação/Companhia das Letras)

Em carta enviada à emissora “France Inter”, o escritor francês Michel Houellebecq disse que o mundo pós-pandemia vai ser “um pouco pior” do que antes. Se eu tivesse lido isso dois meses atrás, provavelmente discordaria, mas hoje não vislumbro destino diferente. Houellebecq é conhecido por seu pessimismo inveterado e seu aparente prazer em dizer coisas desagradáveis, mas sou obrigado a concordar com ele. Ainda que lá na frente, daqui a alguns anos, a gente aprenda com os erros do presente, a ressaca que viveremos em breve será amarga e talvez exija de nós ainda mais resignação e esforço.

“Não acredito nem por um segundo nas declarações do tipo ‘nada será como antes’. Pelo contrário, acredito que será exatamente igual. Não vamos acordar depois do confinamento em um novo mundo, será o mesmo, mas um pouco pior”, escreve o autor de “Serotonina” e “Submissão”.

Segundo Houellebecq, a pandemia tornou a morte “discreta” como nunca, reduzindo as vítimas fatais (25 mil na França) a “uma unidade estatística”. “Outro número teve grande importância nessas semanas – a idade dos enfermos. Até quando eles devem ser reanimados, curados? Até os 70, 75, 80 anos?”, questiona. E arremata: “Nunca antes havíamos expressado com uma indecência tão serena o fato de que as vidas de todos os indivíduos não têm o mesmo valor”.

Me parece que nós, brasileiros, estamos justamente nessa fase: acabou o pavor do início, o índice de isolamento social segue cada vez menor, o crescente número de mortes diárias não mais nos assombra… E como já temos o costume de normalizar estatísticas, principalmente quando elas se referem a assassinatos de negros e pobres nas periferias, pelas mãos do Estado, não será surpresa se nos rendermos ainda mais à insensibilidade.

Também é óbvio dizer que o mercado de trabalho estará em frangalhos e o nível de vida diminuirá para todos. Se reclamávamos da crise econômica que enfrentamos desde 2013, agora sabemos que sempre pode piorar. E, mais do que nunca, talvez sejamos forçados a buscar soluções por aqui mesmo, já que a recessão será global – a maior desde 1929, segundo projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Há de se considerar ainda a possibilidade de tudo isso nos levar ao aumento da tensão social e aprofundamento da crise política, da polarização ideológica e uma consequente escalada de discursos e práticas autoritários – e não apenas por parte da direita como costumamos pressupor. Como refleti no último artigo, duas semanas atrás, são preocupantes algumas tentativas de criminalizar a produção e o compartilhamento de fake news, feitas à revelia de um entendimento profundo sobre o funcionamento da máquina da desinformação em massa. Não podemos permitir que se abra margem para eventuais ataques à liberdade de imprensa e expressão.

Voltando a Houellebecq, discordo dele em apenas um ponto: a epidemia do novo coronavírus, na opinião do escritor, “deveria ter como principal resultado a aceleração de algumas mudanças em curso, em particular a diminuição do contato humano”. “A crise oferece uma magnífica razão de ser para esta tendência acentuada: uma certa obsolescência que parece afetar as relações humanas”, diz. Acredito que, dado o avanço das ferramentas de comunicação, já podemos nos dar ao luxo de flexibilizar o contato face a face em ambientes de trabalho e instituições de ensino. Mas, de modo geral, as relações humanas precisam ser fortalecidas, e não liquefeitas.

A pandemia não mostrou que estamos todos no mesmo barco, mas em barcos diferentes no mesmo oceano. Sem idealismos exacerbados e com o devido esforço, podemos estar diante da oportunidade de resgatarmos aquilo que temos de mais importante como seres humanos. Para o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017), o ponto fundamental que nos diferencia dos animais é: “Amar o próximo como ama a si mesmo torna a sobrevivência humana diferente daquela de qualquer outra criatura viva. […] O preceito do amor ao próximo desafia e interpela os instintos estabelecidos pela natureza, mas também o significado da sobrevivência por ela instituído, assim como o do amor-próprio que o protege”. Por isso também aposto no melhor.

Artigo originalmente publicado no jornal “Tribuna da Bahia”, em 05 de junho de 2020.

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