Retrato do Brasil

Capa de “Max e os felinos”

O escritor brasileiro Moacyr Scliar (1937-2011) publicou a novela “Max e os felinos” (L&PM) em 1981, reta final da Ditadura Militar. O livro narra a trajetória de um jovem alemão que, para fugir do nazismo, toma o primeiro navio rumo ao Brasil. A embarcação, no entanto, sofre um naufrágio criminoso e Max se vê obrigado a dividir o bote salva-vidas com um jaguar. Por dias a fio, o rapaz tem de alimentar o animal para evitar que ele o devore e, aos poucos, ambos vão construindo uma perigosa relação, que podemos ler como uma pequena alegoria atemporal do nosso país.

O ponto convergente que mais salta às vistas, até mesmo aos olhos menos atentos, é o sentimento criado pelo alto-mar no protagonista: o de que não há soluções efetivas para aquela enrascada – sensação semelhante à vivida pela Alemanha pré-nazista e pelo Brasil em diversos momentos de sua história. Quando o jaguar escapa da gaiola e pula para o bote, um dos primeiros impulsos de Max é se jogar na água e nadar até os destroços do navio. Mas desiste ao constatar que, para tal, precisaria abandonar os poucos equipamentos de sobrevivência dos quais dispunha.

No entanto, a alegoria se realiza na cena em que um tubarão ataca o escaler. Segue-se uma luta entre os animais e, num arroubo de irracionalidade, Max abraça o companheiro de viagem na tentativa de contê-lo. E fica assim mesmo depois que o tubarão vai embora, sentindo no “rosto o áspero bigode, o bafo acre da fera. O que estou fazendo, murmurou horrorizado, o que estou fazendo?”. De súbito, o jaguar havia deixado de ser uma ameaça para se tornar uma espécie de conforto imediato (e perigoso) para seus temores.

A partir de então, o medo de Max diminui gradativamente. Em determinado momento, o rapaz chega a ter pena da fera e se pergunta se conseguiria domesticá-la. “Por que não? O felino não o tinha devorado até o momento – não seria aquilo um secreto desejo de submissão […]?”. (Detalhe que ele, na Alemanha, estudara ciências naturais na universidade, com um professor que desenvolvia pesquisas com felinos. Ou seja, não era nenhum ignorante no que se referia ao comportamento de animais selvagens).

O protagonista só consegue acabar com seu martírio ao perceber que a única saída é enfrentar o jaguar. Na cena final, os dois se atracam e o rapaz perde os sentidos. Quando é encontrado por um navio brasileiro, o bicho já havia sumido como se nunca tivesse existido. Se é que existiu.

Publicado na época em que o Brasil fazia a abertura democrática, o livro foi classificado pelo próprio autor como “uma metáfora política sobre o autoritarismo”. Mas, apesar desse contexto histórico e político específico, funciona como o retrato de um país que, movido pelo medo e pela desesperança, escolheu abraçar um destino imprevisível em não raras ocasiões. Com quase 40 anos, “Max e os felinos” nos permite olhar em volta e nos perguntarmos o que estamos fazendo.

Artigo originalmente publicado no jornal “Tribuna da Bahia”, em 03 de julho de 2020.

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