Consolações para uma vida sofrida

Friedrich Nietzsche

Em algum momento das minhas férias recém-findadas, li o último capítulo do livro “As consolações da filosofia” (L&PM), do suíço Alain de Botton. Li porque estava à caça de um tema sobre o qual escrever no meu retorno, e o título do capítulo em questão, “Consolação para as dificuldades”, me pareceu especialmente inspirador.

Em quase cinquenta páginas, Botton reflete sobre os sofrimentos inerentes à vida de todas as pessoas, com base no pensamento de Friedrich Nietzsche, conhecido filósofo alemão do século XIX. Embora a existência neste planeta seja mais difícil para uns do que para outros, é inegável que seja uma expiação para todos nós. O coronavírus está aí para não me deixar mentir.

Em uma passagem, o autor aponta que, segundo Nietzsche, é impossível alcançar uma “vida plena” sem “passar por períodos de grande infortúnio” e as “origens de nossas maiores alegrias pareciam residir junto àquelas de nossos maiores sofrimentos”. Achar que é possível eliminar as agruras por completo é um engano que só traz mais e mais frustração. “Fugir da dor é uma perda de tempo”, sentenciou Adélia Prado seis anos atrás, no programa Roda Viva.

Pensei em me valer de tais reflexões para escrever sobre a ruptura que vivemos — uma associação da maior crise sanitária dos últimos cem anos com incertezas econômicas e sociais igualmente angustiantes. Mas o tema me parecia demasiado repetitivo (além do fato de que as tragédias diárias trazidas pelo noticiário são mais que suficientes para as nossas mentes cansadas). E, como se não bastasse, lembrei da minha primeira — e trágica — tentativa de ler Nietzsche, ainda nos primeiros anos da faculdade. Portanto, seria temerário ir em frente.

Um dos sofrimentos mais difíceis de suportar, embora não esteja ligado a grandes questões sociais, é a angústia da página em branco, também conhecida como bloqueio criativo. Os maiores escritores da história, em alguma medida, foram acometidos por esse mal. Dizem que Franz Kafka (não é “Kafta”, ok?) precisava se sentir exausto para que suas ideias fluíssem. William Falkner se embriagava de uísque enquanto trabalhava. Já Ian McEwan diz gostar de lavar louça quando não consegue escrever.

Botton aponta que os gregos não tentavam eliminar as dificuldades, mas “a cultivavam”. Eles eram conscientes de que, quando uma tempestade ia embora, outra poderia chegar a qualquer momento. E defendiam que o melhor caminho era reagir de maneira inteligente, cada um de acordo suas particularidades. Falar e refletir sobre as dificuldades é uma forma de “cultivá-las”, aceitando que elas sempre existirão, ainda que não sejam as mesmas.

Se estiver sem ideias, se der branco, escreva sobre essa ausência. O sofrimento que ela causa sempre será digno de nota.

(Antes que eu me esqueça, devem ter percebido que o título, se não fraudulento, é no mínimo exagerado. Quem me dera saber a receita para acabar com os sofrimentos da vida. Nietzsche dizia que isso era quase impossível. Vale a pena levá-lo em consideração.)

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