Vozes tóxicas

Foto por Pixabay em Pexels.com

Meus amigos reclamam da toxidade em que se transformaram o Twitter e o Instagram, mas meu problema tem sido mesmo é com o Facebook. Sempre que acesso minha conta, já praticamente abandonada, meu estoque de energia vital sai um nível menor. É tanta amargura disfarçada de criticidade aparecendo na minha timeline que não entendo por que aquelas pessoas estão nas redes sociais e não estão no consultório de um psicólogo (ou psiquiatra).

A maioria dos posts é de gente querendo impor a própria opinião aos “amigos” e seguidores e, quando alguém ousa discordar, sobe o tom e reforça seu ponto de vista com toda a ferocidade que um ego ferido é capaz de destilar. Recentemente, vi um dito esclarecido e progressista elogiando, mais de uma vez, a mulher que viralizou após destruir uma peça de Romero Britto. Como se não bastasse, essa mesma pessoa sentenciou que todas as demais obras do artista mereciam o mesmo destino. A lógica é: se não me agrada, se não concordo, é porque é errado e por isso não deve existir.

Pregar a destruição de produções artísticas ou intelectuais é um fenômeno quase tão antigo quanto a humanidade, ainda que as motivações nem sempre tenham sido as mesmas ao longo da história. Na maioria dos casos, no entanto, tem o objetivo de tentar aniquilar ideias divergentes. Na Alemanha nazista, até existia um termo para isso, “bücherverbrennung”, que basicamente significa “queimar livros”. Em 10 de maio de 1933, em várias cidades alemãs, nazistas queimaram milhares de livros inconvenientes ao regime. Foram para a fogueira Sigmund Freud, Thomas Mann, Stefan Zweig, Erich Maria Remarque e tantos outros.

No ano passado, padres católicos do norte da Polônia incineraram exemplares da obviamente inofensiva série “Harry Potter”. Na foto publicada no… Facebook, também podemos ver um livro do guru indiano Osho, uma máscara africana e outros objetos considerados “malignos”.

O jornalista Matheus Pichonelli publicou, em seu blog no “UOL”, que o ódio a algo ou alguém se tornou o fã-clube que nos une. Se há alguns anos as pessoas se reuniam para trocar ideias sobre um tema de comum interesse e admiração, hoje nos unimos nas redes sociais para manifestar raiva contra alguma coisa. Seja Romero Britto, J.K. Rowling, feministas, pessoas trans, socialistas, neoliberais, o PT, Bolsonaro, eleitores de Bolsonaro, você, eu, todos podemos ser alvos.

Enquanto escrevia este artigo, fiz uma pausa para olhar o Facebook e, coincidentemente, me deparei com uma entrevista do sociólogo Zygmunt Bauman (1925-2017) sobre o assunto. Ele diz ao “El País” que “as redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes […]”.

Para além de qualquer espectro político-ideológico, me parece que estamos fazendo escolhas cada vez mais parecidas, nenhuma delas construtiva. Talvez seja um exercício interessante abrir nossos ouvidos para vozes dissonantes, por mais desagradáveis que venham a ser.

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