Invisível por ser diferente

Capa da HQ “A diferença invisível”

“Marguerite tem 27 anos, e aparentemente nada a diferencia das outras pessoas. É bonita, vivaz e inteligente. Trabalha numa grande empresa e mora com o namorado. No entanto, ela é diferente. Marguerite se sente deslocada e luta todos os dias para manter as aparências. Sua rotina é sempre a mesma, e mudanças de hábito não são bem-vindas. Seu ambiente precisa ser um casulo. Ela se sente agredida pelos ruídos e pelo falatório incessante dos colegas.”

A historinha acima resume a narrativa da excelente HQ “A diferença invisível”, escrita pela francesa Julie Dachez e ilustrada pela artista visual Mademoiselle Caroline. Também é o relato pessoal da própria autora, que, aos 27 anos, foi diagnosticada com síndrome de Asperger, um dos muitos transtornos do espectro autista. Didática, a obra nos leva a refletir sobre uma questão que está mais perto de nós do que imaginamos, mas é invisibilizada pelo preconceito ou pela falta de informação.

É surpreendente que, na França, no avançar do século XXI, alguém tenha gastado as quase 30 primeiras décadas da própria vida para se descobrir neurodivergente (quando o desenvolvimento neurológico é considerado atípico para os padrões convencionais). Isso em muito se deve à carência de profissionais capacitados para fazer o diagnóstico. No livro, quando desconfia que é “aspie” (termo que tem se popularizado como forma de quebrar o estigma), Marguerite marca uma consulta com um dos psicólogos mais conhecidos da cidade. Além de ignorar o desabafo da paciente, ele demonstra ter um conhecimento totalmente superficial e estereotipado sobre o tema, a ponto de soltar pérolas como: “Você não parece nada com um autista. Por exemplo, você me olha nos olhos! Um autista não encara nos olhos”.

Forma leve de autismo, sem provocar deficiência intelectual, a síndrome de Asperger foi descrita pela primeira vez em 1944 pelo psiquiatra austríaco Hans Asperger, após observar 200 crianças que apresentavam as mesmas características. Mais tarde, em 1981, esse trabalho foi aprofundado pela psiquiatra inglesa Lorna Wing, mãe de uma criança autista, com a inserção de 34 novos casos.

Um traço marcante dos aspies é o hiperfoco – espécie de concentração intensa no mesmo assunto, levando as pessoas do espectro a desenvolver habilidades acima da média. Suspeita-se que gênios como Albert Einstein, Mozart e Alfred Hitchcock eram aspies; hoje em dia também se fala em Bill Gates e Mark Zuckerberg, criadores da Microsoft do Facebook, respectivamente.

Disseminar informação talvez seja a política pública mais importante e que mais faz falta. Em “A diferença invisível”, Marguerite se vê pressionada, por si mesma e pelas pessoas à sua volta, a transgredir os próprios limites, como frequentar locais barulhentos, viajar com desconhecidos ou sair para almoçar com os colegas de trabalho. Ela só se aceita e entende que pode – e deve – se respeitar em detrimento da ignorância das pessoas que a cercam.

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