O valor do silêncio

Foto por Zino Bang em Pexels.com

Em uma crônica escrita no ano de 2004, Lya Luft reflete sobre o quão soa estranho alguém gostar de estar sozinho nessa cultura de barulho e agitação na qual vivemos. Para além do trabalho, nos obrigamos a inúmeros compromissos sociais, muitos dos quais nem sempre nos interessam de fato. A máxima é estar em constante interação e exposição. Nosso Instagram está aí para não nos deixar mentir. E, como quem não quer nada, paira no ar uma pergunta que às vezes nos alfineta e nos faz pensar: quando iremos marcar um encontro com nós mesmos?

Não que o agito e as interações sociais não sejam importantes. Por meio delas aprendemos mais sobre o mundo e as pessoas, canalizamos tensões cotidianas, enriquecemos perspectivas e trabalhamos a empatia. Mas o silêncio também é necessário, nem que seja para metabolizar toda essa carga de informações que absorvemos. E é quando estamos sozinhos que interagimos com o nosso eu.

Estar sozinho, ao contrário do que muito se pensa, não significa abrir caminho para a solidão, que pode acometer até mesmo quem é dono da mais intensa vida social. Ir ao cinema, teatro, show e outros espaços desacompanhados é uma experiência à qual nos arriscamos cada vez menos. Temos medo de nos sentir desinteressantes e pouco requisitados, ou pior, que os outros nos vejam dessa forma. Quantos likes você recebeu na sua última foto de evento social, festa, viagem com amigos? E quantos teve o último registro de momento intimista, em casa lendo um livro ou vendo um filme (se é que você o tem)?

A resposta, pelo menos no meu caso, é óbvia. Como ser introvertido e pouco afeito a multidões, aprendi com o tempo que o silêncio é quase sempre libertador. É quando não preciso me dividir para corresponder às expectativas dos outros à minha volta que consigo olhar com mais objetividade para dentro de mim mesmo e encarar, sem constrangimento, o que lá existe de mais espinhoso e menos agradável. Como disse no início da crônica, precisamos, pelo menos de vez em quando, marcar um encontro com nós mesmos.

Crônica publicada originalmente no site bnews.com.br, em 30 de maio de 2017.

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