A vida em segundo plano

Foto por Yaroslav Danylchenko em Pexels.com

A campanha deste ano tem escancarado uma das faces mais sombrias da política: quando os objetivos eleitorais falam mais alto, até a vida humana fica em segundo plano. E não estou nem falando dos assassinatos de candidatos por adversários, que por si só já expressam nossa barbárie civilizacional, mas de um fenômeno novo diante do momento que vivemos: em meio a uma pandemia descontrolada, aglomerações em eventos eleitorais no interior da Bahia tornaram-se corriqueiras, me fazendo perguntar de quantos respiradores precisaremos para que os municípios elejam seus representantes no próximo dia 15.

Na semana passada, em Itaberaba, um candidato conduziu um ato político com dezenas de pessoas na rua, a maioria delas sem máscara. O vídeo com o registro do momento circulou nas redes sociais. Além das aglomerações, os candidatos do interior também não se furtam ao antigo hábito de ir pedir votos de porta em porta. O fato é reclamação constante dos eleitores. Exemplos são muitos, incluindo o município de Ibiassucê, no sudoeste do Estado. Lá, coincidentemente, o número de casos de covid-19 voltou a subir no período eleitoral.

Esse é mais um problema contra o qual a própria população pode lutar. Pensando nisso, o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) criou um formulário online para estimular os eleitores a denunciar atos de campanha que desrespeitem as normas sanitárias. O denunciante também pode ligar para (71) 3373-9000. Nas 48 horas iniciais, o serviço contabilizou 1.808 ligações.

Nesta semana, a Justiça Eleitoral determinou a suspensão de todos os eventos de campanha do PSD e do DEM em Riachão do Jacuípe após ocorrência de aglomerações. A promotoria apontou que, entre as infrações, estavam a ausência do uso de máscara, aglomeração de mais de 100 pessoas, presença de paredões de som e veículos de duas rodas.

Em nota, o chefe da Ouvidoria do TRE-BA, Venicios Belo, disse que “o Tribunal constatou o aumento da demanda via telefone e a internet vai complementar o atendimento do Disque-Aglomeração, proporcionando mais comodidade ao eleitor e ampliando nossa capacidade de atendimento nos 417 municípios baianos”.

Ontem, o prefeito de Salvador, ACM Neto, ao repercutir o tema, disse que ainda não é possível atribuir a alta de casos de covid-19 a atos políticos no interior. “[…] ainda não é possível atribuir um aumento na taxa de ocupação dos leitos hospitalares aos movimentos políticos no interior”. Pode até ser que não, mas que a coincidência é grande, é.

Passamos a maior parte do ano defendendo e/ou cumprindo medidas de isolamento social, e não será agora que poderemos nos dar ao luxo de agir de forma irresponsável ou permissiva. E é válido ter em mente que a postura dos nossos candidatos em relação a isso dirá muito sobre eles caso sejam eleitos.

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