O medo que nos paralisa

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Minha grande dúvida era como começar esta crônica. Sento na cama, caneta e caderno no colo (às vezes escrevo à mão) e as palavras se recusam a ir para o papel. Me percebo com medo – de não começar do jeito certo, não conseguir ser claro o suficiente. E provavelmente este talvez não seja mesmo o início mais instigante que você tenha lido.

Mas, enquanto desabafo sobre meu pequeno martírio, noto um fato interessante: não apenas comecei o texto como ele já caminha para o segundo parágrafo. E já dei um bom exemplo sobre o tema que pretendo abordar: o medo que nos paralisa.

Martha Medeiros escreveu certa vez que o excesso de opções oferecidas pela vida moderna criou jovens infantilizados, que adiam suas decisões para não correr o risco de errar – algo considerado inadmissível por eles.

Na minha ótica, o pior tipo de medo é o que sentimos após períodos de bravura e de decisões importantes que nos proporcionaram uma vida relativamente confortável. Mesmo querendo manter o ciclo de prosperidade, evitamos qualquer atitude ousada por medo de perder tudo ou parte do que conquistamos. E quando nos damos conta, já somos adultos frustrados e apegados às nossas zonas de conforto, resignados com a monotonia da rotina e esperando ansiosamente o fim de semana, os feriados prolongados, as férias, a aposentadoria, a morte.

Até posso acreditar que algumas pessoas lidem bem com isso, mas não consigo passar mais de seis meses sem pensar em buscar novos desafios. Por mais que estejamos bem, as situações não duram para sempre e optar pela estagnação e o comodismo pode trazer mais prejuízos do que imaginamos.

Publicado originalmente no site BNews, em 26 de março de 2019.

Dica do mês: quatro livros infantis e um romance

Nos últimos meses, fiz algumas leituras com temas bem diversos. A maioria delas foram livros infantis e infantojuvenis. Destaco aqui os últimos cinco que li, quase todos conhecidos do grande público.

O Fantástico Mistério de Feiurinha (Pedro Bandeira)

O Fantástico Mistério de Feiurinha | Amazon.com.br


Clássico de Pedro Bandeira, foi publicado em 1986 e vendeu milhões de exemplares. Conta a história do suposto desaparecimento da princesa Feiurinha, o que causa pânico entre as suas colegas princesas, como Cinderala, Rapunzel e Branca de Neve. Divertida e irreverente, a narrativa ganhou uma adaptação para o cinema, por Xuxa Meneghel, em 2009.

O Reizinho Mandão (Ruth Rocha)

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Outro clássico da literatura infantil brasileira. Escrito por Ruth Rocha em 1973, conta a história de um jovem rei que tinha o costume de mandar todo mundo calar a boca. É uma bela alegoria do autoritarismo político e permanece atual, mesmo após quase 50 anos.

Dauzinho (Eva Furnari)

Meu retorno a Eva Furnari, cuja obra conheci por meio de “A bruxinha Zuzu”, quando eu era criança. O protagonista é um garotinho, o Dauzinho, príncipe do reino de Foncé. Aproveitando-se da ausência dos pais, edita sete leis para obrigar todo mundo a se vestir e a se comportar só de um jeito, pois achava que era errado o fato de as pessoas serem diferentes entre si. A mensagem do livro é que o normal é ser diferente.

As Crônicas de Spiderwick (Tony Di Terlizzi e Holly Black)

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Na verdade, são cinco livros, mas que contam uma história bastante linear e poderiam facilmente ser reunidos num volume único. As edições estão esgotadas há anos, só sendo possível encontrá-las, com muita dificuldade, em sebos. Levada ao cinema em 2009, a série narra as aventuras dos gêmeos Jared e Simon Grace, e de sua irmã, Mallory, que encontram seres fantásticos na casa para onde acabaram de se mudar. História divertida, mas com um final que deixou a desejar.

Torto Arado (Itamar Vieira Júnior)

Torto arado: Amazon.de: Elektronik & Foto


Best-seller brasileiro com mais de 100 mil exemplares vendidos, o livro ganhador dos prêmios Leya, Jabuti e Oceanos conta a história das irmãs Bibiana e Belonísia, que vivem em situação análoga à escravidão numa fazenda na Chapada Diamantina, na Bahia. Repleto de crítica social e política, o romance é um marco na literatura brasileira contemporânea.

Caderno de viagem: Campos do Jordão

Chegamos a Campos do Jordão às 13h40 de um sábado ameno. Embora a temperatura não passasse dos 15º, o sol que se infiltrava pelas nuvens cor de chumbo garantia um clima agradável, bem diferente do frio constante que enfrentáramos na capital paulista, no dia anterior.

A experiência revelou-se única já na entrada da cidade, com o contraste entre as casas em estilo alemão e normando e as habitações paupérrimas nas encostas verdejantes. Pelo visto, a desigualdade social, elemento marcante da realidade brasileira, também integrava a vida daquele que era destino preferido de muitos milionários e famosos de todo o país.

Após um engarrafamento de 40 minutos, chegamos ao Parque Estadual Campos do Jordão (também conhecido como Horto Florestal), espécie de oásis de inverno em meio à densa floresta de araucárias e pinheiros. Ali funciona o badalado restaurante Dona Chica, cujo menu vai de bolinho de pinhão (semente da araucária, vendida aos punhados por ambulantes nas ruas da cidade) a truta grelhada. Famintos, André, Caio e eu desistimos de comer lá quando uma recepcionista mal humorada nos informou que havia DEZENOVE mesas na fila de espera.

Acabamos comendo hambúrgueres num food-truck a uns cem metros do Dona Chica. Também pedimos três drinks de frutas vermelhas, uma das quais era “tomate de árvore”, fruta típica da região. O pedido, que também incluiu uma água com gás, totalizou R$ 185.

Depois do parco e caro almoço, fizemos uma trilha com cerca de 2,7 km que serpenteava pela mata e subia a colina, para sair praticamente no mesmo local por onde havíamos entrado. Embora tenha durado poucas horas, a experiência daquela tarde compensou toda a viagem.

Mas não nos preparou para o frio de 3 ºC que enfrentaríamos à noite. Chegamos ao apartamento que alugamos pelo Airbnb às 19h. O isolamento térmico era péssimo, o que me obrigou a dormir com duas calças, três casacos, gorro, meias, luvas de lã e mais dois cobertores.

Às 20h, fomos jantar no restaurante Küche, localizado no escandaloso Hotel Ort, onde se hospedam as celebridades que vão curtir o frio. Apesar da pompa, os pratos eram apenas levemente mais caros do que já estávamos acostumados a pagar na Bahia. Pedi polvo com purê de batata-roxa, cebola e batata (R$ 85).

Polvo com purê de batata roxa

A noite terminou para nós depois da meia noite, ao redor de uma fogueira no alto de uma colina enevoada e assolada por um vento gelado. Para chegarmos, dirigimos por 20 minutos em uma estrada cada vez mais íngreme, deserta e escura. Cenário de filme de terror. Além de nós três, estavam ali oito funcionários do hotel onde havíamos acabado de jantar, incluindo a recepcionista que nos levara à mesa e algumas babás dos filhos dos hóspedes milionários.

Disputa histórica

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Depois de 24 anos, a cidade de Feira de Santana, a 108 km de Salvador, precisará de um segundo turno para eleger seu próximo prefeito. No páreo, estão o deputado federal Zé Neto (PT) e o atual prefeito Colbert Martins (MDB), que assumiu a cadeira após José Ronaldo (DEM) renunciar para disputar o governo do Estado dois anos atrás. O resultado das urnas no último domingo reflete, entre outras coisas, um possível desgaste do grupo do democrata e um desejo de renovação por parte da população.

Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Zé Neto obteve 119.862 votos (41,55% dos votos) e Colbert Martins, 110.146 (38,18% dos votos). Agora, no próximo dia 29, eles se enfrentarão novamente, e o apoio dos candidatos derrotados poderá determinar (ou não) a vitória. Até o momento, José de Arimatéia (Republicanos) e Carlos Geilson (Podemos) declararam apoio a Colbert, e Carlos Tourinho (PSB) marchará com Zé Neto. O PSOL, que disputou a eleição com a candidata Marcela Prest, marcou uma coletiva de imprensa para hoje, e a expectativa é que anuncie apoio ao petista. Dayane Pimentel (PSL) se mantém neutra, e Orlando Andrade (PCO) e Carlos Medeiros (NOVO) até o momento não se pronunciaram.

Nos bastidores, apoios dos caciques também são vistos como essenciais. No caso da campanha de Colbert, a leitura feita por aliados é que o prefeito de Salvador e presidente nacional do Democratas, ACM Neto, precisará atuar de forma ainda mais ostensiva. Com todas essas forças unidas, acreditam que o emedebista conseguirá o percentual necessário para alcançar a vitória.

Adversária ferrenha do PT desde que se elegeu deputada federal, na onda bolsonarista de 2018, Dayane Pimentel poderia transferir seus votos mais facilmente a Colbert, mas, nesta semana, ela deixou claro que isso está fora de cogitação. “O meu voto Colbert Martins não vai ter jamais”, disse à imprensa. “Eu me candidatei a prefeita dessa cidade porque não concordava com os anseios políticos dos últimos tempos, se me coloquei a disposição, é entendível que o que nós buscamos é a mudança. Sou neutra, meus eleitores estão livres para votar em quem quiser”, acrescentou.

Independentemente do resultado, é certo que a disputa eleitoral deste ano em Feira de Santana ficará marcada na história, tanto pela ausência de segundo turno nos últimos 24 anos quanto por seu caráter acirrado. Analistas políticos da cidade, inclusive, alertam para o risco de se fazer apostas sobre o resultado. Ao site local “Acorda Cidade”, o jornalista Glauco Wanderley avalia: “Ninguém vai conseguir com facilidade, porque não houve vantagem e isso é claro. A disputa é acirrada. É a máquina do governo do Estado contra a máquina do município, que é uma estrutura muito azeitada e consolidada pelo ex-prefeito José Ronaldo ao longo de 20 anos e, com certeza, não é fácil derrotá-lo. Ao mesmo tempo, também interessa para o grupo do prefeito ACM Neto, em Salvador, candidato com certeza (ao governo da Bahia) em 2022”. A conferir.