A vida em segundo plano

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A campanha deste ano tem escancarado uma das faces mais sombrias da política: quando os objetivos eleitorais falam mais alto, até a vida humana fica em segundo plano. E não estou nem falando dos assassinatos de candidatos por adversários, que por si só já expressam nossa barbárie civilizacional, mas de um fenômeno novo diante do momento que vivemos: em meio a uma pandemia descontrolada, aglomerações em eventos eleitorais no interior da Bahia tornaram-se corriqueiras, me fazendo perguntar de quantos respiradores precisaremos para que os municípios elejam seus representantes no próximo dia 15.

Na semana passada, em Itaberaba, um candidato conduziu um ato político com dezenas de pessoas na rua, a maioria delas sem máscara. O vídeo com o registro do momento circulou nas redes sociais. Além das aglomerações, os candidatos do interior também não se furtam ao antigo hábito de ir pedir votos de porta em porta. O fato é reclamação constante dos eleitores. Exemplos são muitos, incluindo o município de Ibiassucê, no sudoeste do Estado. Lá, coincidentemente, o número de casos de covid-19 voltou a subir no período eleitoral.

Esse é mais um problema contra o qual a própria população pode lutar. Pensando nisso, o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) criou um formulário online para estimular os eleitores a denunciar atos de campanha que desrespeitem as normas sanitárias. O denunciante também pode ligar para (71) 3373-9000. Nas 48 horas iniciais, o serviço contabilizou 1.808 ligações.

Nesta semana, a Justiça Eleitoral determinou a suspensão de todos os eventos de campanha do PSD e do DEM em Riachão do Jacuípe após ocorrência de aglomerações. A promotoria apontou que, entre as infrações, estavam a ausência do uso de máscara, aglomeração de mais de 100 pessoas, presença de paredões de som e veículos de duas rodas.

Em nota, o chefe da Ouvidoria do TRE-BA, Venicios Belo, disse que “o Tribunal constatou o aumento da demanda via telefone e a internet vai complementar o atendimento do Disque-Aglomeração, proporcionando mais comodidade ao eleitor e ampliando nossa capacidade de atendimento nos 417 municípios baianos”.

Ontem, o prefeito de Salvador, ACM Neto, ao repercutir o tema, disse que ainda não é possível atribuir a alta de casos de covid-19 a atos políticos no interior. “[…] ainda não é possível atribuir um aumento na taxa de ocupação dos leitos hospitalares aos movimentos políticos no interior”. Pode até ser que não, mas que a coincidência é grande, é.

Passamos a maior parte do ano defendendo e/ou cumprindo medidas de isolamento social, e não será agora que poderemos nos dar ao luxo de agir de forma irresponsável ou permissiva. E é válido ter em mente que a postura dos nossos candidatos em relação a isso dirá muito sobre eles caso sejam eleitos.

Tirar o lixo pra fora

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No meu condomínio, posso levar o lixo para fora a cada dois dias. Mas, como moro só, às vezes nem tenho o que tirar, então vou de acordo com a necessidade mesmo.

No campo dos sentimentos, o processo é parecido. Eventualmente, devemos tirar o lixo (emocional, no caso) para fora, preservando apenas o que for importante para a nossa construção enquanto pessoa.

O lixo emocional são os resíduos do sofrimento, que, a depender do momento e da sua duração, são uma oportunidade para amadurecermos, nos tornarmos mais fortes e ganharmos mais experiência de vida. Quando a dor ganha uma dimensão além da necessária, a ponto de nos sabotar, é sinal de que está na hora de fazer uma faxina pesada na nossa habitação interior.

Pós-término

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Quando você menos espera, o amor acaba. Numa boate lotada, numa rua deserta preenchida pelo som do vento; no quarto, enquanto você lê Paulo Mendes Campos; no banheiro, no momento em que você, com os olhos fechados, deixa a água levar embora o excesso de xampu do cabelo. Em qualquer lugar o amor pode acabar. Pior é quando você ainda ama e é avisado que o outro não te ama mais. A vida que existia em prol de ambos precisará ser descontinuada; agora será cada um na sua, trilhando o próprio caminho.

Em qualquer que seja o caso, a saudade baterá à porta por tempo indeterminado. A saudade te seguirá furtivamente pela rua, sem que você perceba; e estará escondida sob a cama, esperando para puxar-lhe o pé quando as luzes se apagarem e te botarem de frente com os próprios fantasmas.

Você poderá até querer manter a amizade, mas vai descobrir que é mais difícil do que imaginara. O orgulho ferido, a tristeza latejante, ou até mesmo os resquícios de afeto, não deixarão. Sentimentos são indisciplinados e, por mais maduros que sejam, vão sempre querer agir por conta própria.

Administrar a solidão também será complicado. Voltar a ir ao cinema sozinho, viajar sem a presença conhecida no assento ao lado, não ter para quem telefonar no fim do dia e extravasar o estresse do trabalho. A sensação será de algo faltando, melancólica em nível fúnebre. Por isso acho de suma importância manter as antigas amizades e companhias mesmo no auge da relação. Já escrevi sobre isso aqui. Muitas vezes, a solidão deixa de ser opção e passa a nos ser imposta em virtude de decisões erradas que tomamos. Nesses momentos, pensamos: “Poderia ter agido diferente”.

Mas esse momento também é oportunidade para buscarmos o autoconhecimento. Ao comentar a minha crônica anterior, um amigo disse que amar o primeiro que aparece é não sabermos quem de fato somos quando estamos sozinhos. Encarar os nossos defeitos e, ao mesmo tempo, reconhecer e valorizar as nossas qualidades (porque elas existem) é uma boa maneira de sair da fossa e se preparar para o próximo relacionamento. E, consequentemente, conduzi-lo com mais competência.

Crônica originalmente publicada no site bnews.com.br em 27 de março de 2017.

O Brasil e seu rim doente

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Podemos dizer que a história do Brasil se assemelha à de Ivan Ilitch, personagem do célebre escritor russo Leon Tolstói (1828-1910): “[…] das mais comuns e portanto das mais terríveis”. Incluo aqui incontáveis fatos recentes que têm deixado os brasileiros desnorteados e certamente se tornarão uma mancha indelével na nossa memória coletiva.

Tolstói publicou “A morte de Ivan Ilitch” em 1886, quando já era conhecido por grandes obras como “Guerra e Paz” e “Anna Karênina”. Em menos de 100 páginas, narra a história de um juiz que sente a morte se aproximando junto às dores agonizantes de uma doença que ele não sabe ao certo do que se trata.

O livro, inclusive, começa com o velório, mas volta no tempo para mostrar como o protagonista conhece a esposa e se muda para um apartamento, o qual começa a decorar de acordo com o seu gosto. Ivan, no entanto, cai e se fere na região do rim e, depois de um tempo, acredita ter contraído uma doença – nunca diagnosticada com precisão.

Quando o ferimento se agrava, Ivan não consegue mais sair de casa e imerge em uma série de reflexões. Percebe que sua vida é vazia e baseada em aparências. Foram poucos os momentos realmente significativos que vivera. O resto foi atuação social e comodismo.

Em meio aos tormentos da suposta doença, acredita que a família esconde dele seu verdadeiro estado de saúde: “O que mais atormentava Ivan Ilitch era o fingimento, a mentira, que por alguma razão eles todos mantinham, de que ele estava apenas doente e não morrendo e que bastava que ficasse quieto e seguisse as ordens médicas que ocorreria uma grande mudança para melhor. Mas ele sabia que nada do que eles fizessem teria outro resultado que não mais agonia, mais sofrimento e a morte. E a farsa desgostava-o profundamente: atormentava-o o fato de que se recusassem a admitir o que eles e ele próprio bem sabiam, mas insistiam em ignorar e forçavam-no a participar da mentira. Esse fingimento que se estabeleceu em torno dele até a véspera de sua morte, essa mentira que só fazia colocar no mesmo nível o solene ato de sua morte, suas visitas, suas cortinas, seu caviar para o jantar… eram-lhe terrivelmente dolorosos”. (Tradução de Vera Karam, L&PM, 1997)

Em outro trecho, o autodesenganado Ivan Ilitch desconfia do médico que o examina: “E aperta a mão de seu paciente e logo abandona o ar descontraído e começa com ar sério a examinar o paciente, sentindo o pulso e tirando a temperatura, auscultando-lhe e dando-lhe batidinhas. Ivan Ilitch sabe muito bem que isso tudo não passa de fingimento […]”.

Assim como o personagem russo, o Brasil agoniza. Com o vírus descontrolado, as cinzas do Pantanal e da Amazônia, as incertezas econômicas e sociais e as patifarias de sua classe política, a começar pelo presidente da República. Nesta semana, Bolsonaro desautorizou seu terceiro ministro da Saúde desde março – um general da ativa que ele efetivou no cargo a contragosto de muitos – ao cancelar a compra de 46 milhões de doses da vacina chinesa. Assistimos a tudo isso impassivelmente, como se repetíssemos algumas das últimas palavras de Ivan Ilitch: “Vá em frente! Maltrate-me! Mas por quê? O que foi que eu fiz? Por que tudo isso?”.

Como a primeira cena do livro já revela, Ivan morre. Mas, em certa medida, morre uma pessoa melhor, após seus últimos instantes de vida dedicados a uma profunda autocrítica. Fazer autocrítica é quase sempre essencial quando queremos solucionar algum problema. Mas, no momento, talvez estejamos anestesiados demais para isso.