O valor do silêncio

Foto por Zino Bang em Pexels.com

Em uma crônica escrita no ano de 2004, Lya Luft reflete sobre o quão soa estranho alguém gostar de estar sozinho nessa cultura de barulho e agitação na qual vivemos. Para além do trabalho, nos obrigamos a inúmeros compromissos sociais, muitos dos quais nem sempre nos interessam de fato. A máxima é estar em constante interação e exposição. Nosso Instagram está aí para não nos deixar mentir. E, como quem não quer nada, paira no ar uma pergunta que às vezes nos alfineta e nos faz pensar: quando iremos marcar um encontro com nós mesmos?

Não que o agito e as interações sociais não sejam importantes. Por meio delas aprendemos mais sobre o mundo e as pessoas, canalizamos tensões cotidianas, enriquecemos perspectivas e trabalhamos a empatia. Mas o silêncio também é necessário, nem que seja para metabolizar toda essa carga de informações que absorvemos. E é quando estamos sozinhos que interagimos com o nosso eu.

Estar sozinho, ao contrário do que muito se pensa, não significa abrir caminho para a solidão, que pode acometer até mesmo quem é dono da mais intensa vida social. Ir ao cinema, teatro, show e outros espaços desacompanhados é uma experiência à qual nos arriscamos cada vez menos. Temos medo de nos sentir desinteressantes e pouco requisitados, ou pior, que os outros nos vejam dessa forma. Quantos likes você recebeu na sua última foto de evento social, festa, viagem com amigos? E quantos teve o último registro de momento intimista, em casa lendo um livro ou vendo um filme (se é que você o tem)?

A resposta, pelo menos no meu caso, é óbvia. Como ser introvertido e pouco afeito a multidões, aprendi com o tempo que o silêncio é quase sempre libertador. É quando não preciso me dividir para corresponder às expectativas dos outros à minha volta que consigo olhar com mais objetividade para dentro de mim mesmo e encarar, sem constrangimento, o que lá existe de mais espinhoso e menos agradável. Como disse no início da crônica, precisamos, pelo menos de vez em quando, marcar um encontro com nós mesmos.

Crônica publicada originalmente no site bnews.com.br, em 30 de maio de 2017.

Invisível por ser diferente

Capa da HQ “A diferença invisível”

“Marguerite tem 27 anos, e aparentemente nada a diferencia das outras pessoas. É bonita, vivaz e inteligente. Trabalha numa grande empresa e mora com o namorado. No entanto, ela é diferente. Marguerite se sente deslocada e luta todos os dias para manter as aparências. Sua rotina é sempre a mesma, e mudanças de hábito não são bem-vindas. Seu ambiente precisa ser um casulo. Ela se sente agredida pelos ruídos e pelo falatório incessante dos colegas.”

A historinha acima resume a narrativa da excelente HQ “A diferença invisível”, escrita pela francesa Julie Dachez e ilustrada pela artista visual Mademoiselle Caroline. Também é o relato pessoal da própria autora, que, aos 27 anos, foi diagnosticada com síndrome de Asperger, um dos muitos transtornos do espectro autista. Didática, a obra nos leva a refletir sobre uma questão que está mais perto de nós do que imaginamos, mas é invisibilizada pelo preconceito ou pela falta de informação.

É surpreendente que, na França, no avançar do século XXI, alguém tenha gastado as quase 30 primeiras décadas da própria vida para se descobrir neurodivergente (quando o desenvolvimento neurológico é considerado atípico para os padrões convencionais). Isso em muito se deve à carência de profissionais capacitados para fazer o diagnóstico. No livro, quando desconfia que é “aspie” (termo que tem se popularizado como forma de quebrar o estigma), Marguerite marca uma consulta com um dos psicólogos mais conhecidos da cidade. Além de ignorar o desabafo da paciente, ele demonstra ter um conhecimento totalmente superficial e estereotipado sobre o tema, a ponto de soltar pérolas como: “Você não parece nada com um autista. Por exemplo, você me olha nos olhos! Um autista não encara nos olhos”.

Forma leve de autismo, sem provocar deficiência intelectual, a síndrome de Asperger foi descrita pela primeira vez em 1944 pelo psiquiatra austríaco Hans Asperger, após observar 200 crianças que apresentavam as mesmas características. Mais tarde, em 1981, esse trabalho foi aprofundado pela psiquiatra inglesa Lorna Wing, mãe de uma criança autista, com a inserção de 34 novos casos.

Um traço marcante dos aspies é o hiperfoco – espécie de concentração intensa no mesmo assunto, levando as pessoas do espectro a desenvolver habilidades acima da média. Suspeita-se que gênios como Albert Einstein, Mozart e Alfred Hitchcock eram aspies; hoje em dia também se fala em Bill Gates e Mark Zuckerberg, criadores da Microsoft do Facebook, respectivamente.

Disseminar informação talvez seja a política pública mais importante e que mais faz falta. Em “A diferença invisível”, Marguerite se vê pressionada, por si mesma e pelas pessoas à sua volta, a transgredir os próprios limites, como frequentar locais barulhentos, viajar com desconhecidos ou sair para almoçar com os colegas de trabalho. Ela só se aceita e entende que pode – e deve – se respeitar em detrimento da ignorância das pessoas que a cercam.

A sombra do passado

Foto por Luizmedeirosph em Pexels.com

O passado nos transforma de maneiras inimagináveis. Como diz Lya Luft em uma crônica, “quando menos esperamos ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar”. Fico me perguntando de onde brota o tal pensamento paralisante, e a resposta que que mais me ocorre é: “Do passado”. Das experiências, traumas ou até mesmo daqueles sentimentos reprimidos, guardados no fundo de baús que, pesados demais, largamos nos caminhos da existência.

Enquanto tento encontrar as palavras corretas para expressar as ideias aqui expostas, me vem à cabeça a imagem de um boneco de lego, composto por pequenas peças de diferentes cores. Penso que nós, seres de carne e osso, obedecemos a um princípio semelhante: somos um encaixe de experiências distintas que tentamos harmonizar, mas que ora nos puxam para um lado, ora para outro.

No último ano, a minha vida tomou rumos para os quais não tive a expertise de me preparar: terminei um relacionamento conturbado e me deparei com as fraturas emocionais acumuladas ao longo de dois anos; com o término da faculdade e as incertezas de uma vida adulta que parecia começar de fato. Nos meses seguintes, foi quase impossível enfrentar sem medo os obstáculos daquela nova fase que se iniciava.

Nunca lidei bem com mudanças bruscas, e durante semanas me senti pisando em solo movediço. Quase tudo o que havia me acostumado a considerar sólido tornara-se ruína; tentar juntar os pedaços seria uma tarefa árdua, e provavelmente resultaria em algo disforme e declaradamente instável.

Nesse sentido, administrar as feridas deixadas por acontecimentos ruins é, sem dúvida, o maior desafio que a vida nos impõe. Podemos escolher deixá-las em carne viva, tornando sôfrega a nossa caminhada, ou optar por curá-las da melhor forma possível. As cicatrizes podem ser eternas, mas que sejam elas metáforas do nosso amadurecimento, e não sinais de alerta que nos impeçam de viver com plenitude. Devemos ter em mente que a realidade em volta é, antes de mais nada, aquilo que o nosso [trágico] mundo interior lhe atribui.

É preciso se despir dos traumas como se eles fossem roupas tão sujas e velhas que só servem ao cesto de lixo. E que nos transformemos para a união, a coragem e a generosidade de sentimentos — fogueiras perenes que afugentam as feras portadoras do medo e da solidão.

Texto de fevereiro de 2017, publicado originalmente no Bnews.

Vozes tóxicas

Foto por Pixabay em Pexels.com

Meus amigos reclamam da toxidade em que se transformaram o Twitter e o Instagram, mas meu problema tem sido mesmo é com o Facebook. Sempre que acesso minha conta, já praticamente abandonada, meu estoque de energia vital sai um nível menor. É tanta amargura disfarçada de criticidade aparecendo na minha timeline que não entendo por que aquelas pessoas estão nas redes sociais e não estão no consultório de um psicólogo (ou psiquiatra).

A maioria dos posts é de gente querendo impor a própria opinião aos “amigos” e seguidores e, quando alguém ousa discordar, sobe o tom e reforça seu ponto de vista com toda a ferocidade que um ego ferido é capaz de destilar. Recentemente, vi um dito esclarecido e progressista elogiando, mais de uma vez, a mulher que viralizou após destruir uma peça de Romero Britto. Como se não bastasse, essa mesma pessoa sentenciou que todas as demais obras do artista mereciam o mesmo destino. A lógica é: se não me agrada, se não concordo, é porque é errado e por isso não deve existir.

Pregar a destruição de produções artísticas ou intelectuais é um fenômeno quase tão antigo quanto a humanidade, ainda que as motivações nem sempre tenham sido as mesmas ao longo da história. Na maioria dos casos, no entanto, tem o objetivo de tentar aniquilar ideias divergentes. Na Alemanha nazista, até existia um termo para isso, “bücherverbrennung”, que basicamente significa “queimar livros”. Em 10 de maio de 1933, em várias cidades alemãs, nazistas queimaram milhares de livros inconvenientes ao regime. Foram para a fogueira Sigmund Freud, Thomas Mann, Stefan Zweig, Erich Maria Remarque e tantos outros.

No ano passado, padres católicos do norte da Polônia incineraram exemplares da obviamente inofensiva série “Harry Potter”. Na foto publicada no… Facebook, também podemos ver um livro do guru indiano Osho, uma máscara africana e outros objetos considerados “malignos”.

O jornalista Matheus Pichonelli publicou, em seu blog no “UOL”, que o ódio a algo ou alguém se tornou o fã-clube que nos une. Se há alguns anos as pessoas se reuniam para trocar ideias sobre um tema de comum interesse e admiração, hoje nos unimos nas redes sociais para manifestar raiva contra alguma coisa. Seja Romero Britto, J.K. Rowling, feministas, pessoas trans, socialistas, neoliberais, o PT, Bolsonaro, eleitores de Bolsonaro, você, eu, todos podemos ser alvos.

Enquanto escrevia este artigo, fiz uma pausa para olhar o Facebook e, coincidentemente, me deparei com uma entrevista do sociólogo Zygmunt Bauman (1925-2017) sobre o assunto. Ele diz ao “El País” que “as redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes […]”.

Para além de qualquer espectro político-ideológico, me parece que estamos fazendo escolhas cada vez mais parecidas, nenhuma delas construtiva. Talvez seja um exercício interessante abrir nossos ouvidos para vozes dissonantes, por mais desagradáveis que venham a ser.