Afinal, o que é fascismo?

Capa do livro “O que é fascismo? e outros ensaios”

Já escrevi aqui que o termo fake news goza de popularidade jamais vista no Brasil. Entretanto, há outro, cuja (re)ascensão se deu praticamente em paralelo, que consegue desbancá-lo: utilizado por críticos e opositores para descrever o governo Bolsonaro, “fascismo” foi relacionado ao longo da história a regimes autoritários que vão da América do Sul à Europa Ocidental. E servido a conservadores para adjetivar de forma negativa grupos e movimentos minoritários supostamente extremistas (“gayzismo”, “feminazi” – isso soa familiar?). Mas, afinal, o que é fascismo?

Em ensaio publicado no “Tribune”, em 1944, George Orwell (“1984” e “A Revolução dos Bichos”) escreve: “Neste país, se se pedir a uma pessoa medianamente esclarecida que defina o fascismo, ela em geral responderá apontando os regimes alemão e italiano. Mas isso é muito insatisfatório, porque mesmo os grandes Estados fascistas diferem em boa medida um do outro em estrutura e em ideologia”. O escritor também cita Japão, Portugal e até ditaduras da América do Sul – todos classificados, em algum momento, como fascistas apesar das claras diferenças entre si. E nenhum deles, nunca, aceitou vestir a carapuça. (À época, o Brasil estava sob o Estado Novo do caudilho Getúlio Vargas).

Orwell vai mais além ao apontar que os termos “fascista”, “de tendência fascista” ou “simpatizante do fascismo” eram aplicados a grupos que iam de conservadores e comunistas a mulheres e gays. “Vai-se constatar que, do modo como é usada, a palavra ‘fascismo’ é quase desprovida de todo significado”, sintetiza. Considerando que o uso dessa palavra se mantém tão flexível, como podemos cravar se um regime hoje é ou não fascista? O governo Bolsonaro é fascista?

De acordo com o professor de Ética e Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, Roberto Romano, uma das características definidoras do fascismo é o constante ataque a instituições e à ciência. “É uma característica muito clara da Alemanha nazista. Pegaram a ciência e debocharam dela o quanto puderam. Nomearam para os postos-chave pessoas que eram subservientes a Hitler”, avalia, em entrevista ao “Huffpost Brasil”. Ainda de acordo com o especialista, o incentivo para que apoiadores invadam hospitais é outro sinal claro de tendência fascista: “No momento em que estamos vivendo uma pandemia, o presidente dizer que é uma ‘gripezinha’ e incentivar seus cúmplices a invadir hospitais é típico da SA (Sturmabteilung), uma milícia que se vestia de marrom e praticava a violência contra os que resistiam às ordens do partido nazista”.

Entretanto, ressalta que ainda não estamos sob um regime fascista, mas nos preparando para tal: “Estamos assistindo agora não a um Estado fascista, mas a um que está em andamento para se tornar. Parafraseando Eduardo Bolsonaro, não se trata de ‘se’, mas de ‘quando’”.

A despeito de certo esvaziamento do termo, estados considerados fascistas pela historiografia possuem características em comum que parecem reverberar sobre alguns governantes contemporâneos, a exemplo dos supostamente antagonistas ideológicos Jair Bolsonaro e Nicolás Maduro. E, independentemente da leitura que o futuro fará da conjuntura atual, é nossa obrigação empreender esforços para que nosso passado autoritário continue preso às páginas dos livros de história.

Artigo originalmente publicado no jornal “Tribuna da Bahia”, em 19 de junho de 2020.